domingo, 12 de dezembro de 2010

Quimdim




Eis que, quendo menos se espera... Acontece tudo, por menor que seja.

Aromas adocicados.

Saúde!
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Início de ano escolar.
- Oie!
- Oi...
- Quer brincar?
- Quero...
- Qual seu nome?
- Jéquisson...
- O meu é Arminda. Tá com você!
E saíram correndo.
...
- Oie!
- Oi...
- Vamos brincar mais hoje, Quinho?
- Quinho?
- De Jéquisson... Jequinho, Quinho.
- Ah tá.
- Tá com você!
E saiu correndo.
...
- Oie!
- Oie!
- Tá com você de novo!
- Tá, Dinha.
- Dinha?
- Armindinha... Dinha!
- Ah tá! Dinha... Gostei.
E correram

*****

- O Quinho tá namorando!
- Não tô, e para de gritar, garota!
- Tá sim que eu vi o beijo...
- Para de ser criança.
- Tá namorandooo!
- Só podia ser a Dinha mesmo... doidinha.
- Me leva no ponto de ônibus amanhã, tá?
- Tá, Dinha...
...
- Me leva agora?
- Levo. Vamos.
- Lá vem o meu. Até amanhã!
- Me dá um beijo?
- Não. Tchau.
Já se somavam dez negativas.
...
- Quer que eu te acompanhe até o ponto do ônibus?
- Quero. Vamos.
...
- Olha lá, é o seu.
- Brigada. Até amanha.
- Me dá um beijo?
- Só se você me der tchau quando eu estiver lá dentro.
- Tá, Dinha.
Ele deu. Ela sorriu.
...
- Eu te dei tchau, me da um beijo?
- Você esqueceu os pulinhos.
- Você não disse...
- Você tinha de saber.
- Ok, tchau e pulinhos somam um beijo. Te levo hoje?
- Claro.
Deu tchau e pulinhos.
...
- Me dá um beijo?
- Não.
Quinho já não contava mais as negativas.

*****
A caminho do ponto...
- E a formatura, Quinho? Já escolheu seu par?
- Quer ir comigo?
- Não.
- Então não escolhi.
- Nem eu.
- Vamos comigo?
- Não. Meu ônibus!
- Me dá um beijo?
- Só se você namorar...
- Eu namoro.
- Tchau!
...
- Estamos namorando?
- Não.
- Mas você disse...
- Disse nada, babaQuinho.
- DoiDinha...
- Te adoro!
Deu-lhe um beijo no rosto e subiu no ônibus.

*****

Depois da aula...
- Ei Jack, beleza?
- Jack?
- Quinho era muito infantil...
- Ah, tá, Dinha
- E aí, recém-formado, vai fazer o quê da vida?
- Não sei, e você?
- Sei lá!
De sopetão, Deu-lhe um beijo na boca com língua e tudo. Deixou o coitado do Quinho com cara de babaQuinho e correu como se tivesse dito “Tá com você”.
...
- Me dá outro beijo?
- Não.
- Vai começar tudo de novo...
Ela sorriu. Ele entendeu, mesmo sem entender. Só respondeu:
- Tá, Dinha...
E sorriu de volta.


 Autor:  Jorge Pedrosa



Seja sócio da Adega

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

República Anedotária do Brasil

Grande como o país, e igualmente cheia de boas intenções.

O bom-humor vale a pena. Sempre.

Sirvam-se

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Viajo bastante e, de repente, me deu uma vontade súbita de relatar algumas curiosidades. Por exemplo: quando fui ao Sul do país, descobri que catarinense é chamado de barriga verde porque gaúcho tem limo nas costas. Não entendi muito bem, principalmente pela inviabilidade de se criar o tal elemento nas costas de um ser humano normal. A não ser que os gaúchos sejam distantes descendentes do herói “Aquaman”. E aí eu ia querer ser gaúcho também!

Mal sabem os gaúchos e catarinenses do curitibano amalucado que fica ali do lado. O pessoal do Paraná sai todo agasalhado de manhã, tira quase tudo à tarde, e põe tudo de volta à noite. Além disso, não pode ver gente mal vestida que chama logo de “baiano”. Outra colocação que fiquei sem entender, afinal, estou longe de ser soteropolitano.

Subi pelo sudeste, rumo à Bahia. E antes de chegar à terra do querido Raul Seixas, dei um pulo em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em todas as localidades eu me deparava com axé, acarajé e umas barbeiragens no trânsito seguidas de gritos de “olha a baianada!”. Nas primeiras vezes pensei até que já estivesse na divisa e esperava, até com certo pavor, uma manada de baianos correndo em meio a uma micareta de rua me pisoteando todo. Mas depois eu percebi que eu devia ter cara de baiano mesmo: não era só no Sul que se referiam a mim dessa maneira. Percebi, com isso, que tenho de emagrecer, acho que estou com cara de acarajé.

Próximo à divisa com o nordeste, sintetizei as informações e concluí o seguinte: mineiro é um povo que gosta tanto de queijo, segundo os cariocas, que trocaria até pela Carolina Dieckman e a Luiza Brunet, ambas com ou sem lingerie, por um naco do laticínio. Pergunte isso a um deles e ele vai te responder que é melhor trocar por queijo do que por baseado: “queijo pelo menos mata a fome, sô”. Mas nem só de discordância vivem os dois: eles acham que o paulista só aceitava as duas se elas não atrapalhassem o trabalho. Eu até tentei perguntar tirar a prova real de tudo, mas os paulistas estavam ocupados demais, os cariocas não entenderam a pergunta e os mineiros quiseram saber se Brunet era queijo branco ou amarelo. Eu não aguentava mais ser chamado de baiano pelas ruas, troquei de roupa, vendi o carro e resolvi andar de táxi. E não pense que, como você, esqueci do Espírito Santo, que também fica na região sudeste, apesar de muitos afirmarem ser integrante da região Norte brasileira. O que conta é que capixaba é um povo que póca, seja lá o que for isso.

Cheguei à Bahia e adivinha o que comprei logo na rodoviária? Uma rede! Recomendação do Mizael, grande amigo pernambucano. A única coisa que não me deu vontade de comprar na Bahia foi acarajé: gosto de espelho não devia ser muito agradável. Vendi a rede e comprei caruru, vatapá, cocada e azeite de dendê. Aluguei uma rede e fiquei a tarde inteira na praia comendo, olhando a praia e dormindo de vez em quando. Eu e mais uns cinco. Vimos um pacote com notas de cem reais levados pelo vento e torcemos muito pro vento virar e a gente ficar rico, mas não foi dessa vez. Uma sorte melhor nos aguarda.

Levei garrafas de azeite de dendê para toda a família e descobri que virei traficante do produto. Pelo menos foi o que disseram os policiais que me prenderam na divisa com o Piauí. Fiquei três dias presos ouvindo cada história... Só de caminhão de boia-fria dava meia dúzia de livros. E se contar quantos personagens, dá mais que a bíblia. José, João, Antônio e Moisés era o que mais tinha naquele nordeste anedotário.

No xilindró, descobri alguns fatos interessantes: no Rio grande do Norte o pessoal deve gostar muito de Caju, pois já recebi convite para a Festa do Caju do ano que vem; desconfio que tentaram me enganar, mas muita gente afirmou que Sergipe é uma gleba da Bahia; só em Pernambuco é que se dança frevo, porque o ser humano já evoluiu há muito, e uma curiosidade: Pernambuco é o único Estado que não repete letras em seu nome, o que representa uma diversidade letral interessante; o Ceará não é da Bahia, é do Ciro Gomes, e o arco-íris de lá ainda surge em preto e branco, segundo os mais sabidos, nasce da cabeça de cidadãos selecionados. Alagoas, segundo alguns cientistas da prisão sergipana, não é do Ciro nem da Bahia, é do Renan Calheiros e, segundo a ala dos geógrafos, sim, há lagoas em Alagoas. O nordeste em si, parece uma série de concessões, por que o Maranhão é do Sarney e de Jesus... guaraná Jesus.

Eu saí da prisão mesmo graças à ajuda de mais da metade da população de Teresina, que se compadeceu das minhas histórias e pagou a fiança. Não que ela fosse cara, mas sabe o que candango diz do povo Sergipano né... Fui saber quando cheguei ao centro-oeste. Mas dessa vez quem ouvia os gritos era o taxista, natural do estado vizinho, porque o os outros só gritavam “olha a goianada!”. Talvez eu nem tivesse mais com cara de acarajé.

Cheguei em Brasília 19 horas, na hora da “Voz do Brasil”. Meia hora depois, arrumei uma maneira de ganhar muito dinheiro, só não posso falar como. Então fui de avião, primeira classe, para Cuiabá que, além de ser pejorativamente abreviada, é... só abreviada mesmo. Em lugar que não aparece na Globo, eu não permaneço. Justamente por isso, tive uma passagem relâmpago por Campo Grande, uma fazenda gigantesca.

Faltava só o Norte e, como eu já estava muito rico com as empreitadas de sucesso realizadas em Brasília, fretei um jatinho e falei pro piloto que queria ir para o Acre. Ele chegou ao ponto de pesquisar na internet, mas foi infeliz nas pesquisas: era uma gleba inexistente. Resolvi então esticar o trajeto e fui direto para o Amapá, outra concessão feita ao Sarney, onde, segundo a plebe local, ele às vezes se esconde não sei do quê. Para não ser espetado pelo bigode do chefe, rapidamente fui a Roraima e tive o prazer de ver um jogo de futebol do time Ibis, que é a única coisa que já ouvi falar de Roraima. Provavelmente você também. Aterrisando em Rondônia, lembrei do fato que o estado também não tem time da Série A do brasileirão, mas tem peixe elétrico, o que é um perigo que me fez sair correndo de lá.

No Pará aprendi o remelexo do Calypso e soube, finalmente, que Jesus não é brasileiro coisa nenhuma: ele nasceu em outra Belém. Caminhando um pouco mais, me informaram que já estava no Amazonas, mas ninguém sabe precisar muito bem aonde termina um e começa outro ou vice-versa. Talvez a maior expressão de mau-gosto caracterize o Amazonas. Provavelmente o apelido desse estado tão simpático foi inventado por um ginecologista que não se sentiu bem em um ambiente quente, úmido e com muito mato. E antes que eu me esqueça, o Acre também não repete as letras no nome, mas se eu não aviso, ninguém percebe.

Entre minhas idas e vindas, há quem diga que sou um descobridor. Mas eu não descobri o Brasil, isso quem fez foi Pedro Álvares Cabral. Eu descobri estereótipos de anedotas que, em doses moderadas, servem para disseminar, com algum bom-humor, as mais variadas culturas desse país. E para levar um pouco de alegria às pessoas. Afinal, sorrir é saudável. Esqueça as diferenças, apenas sorria e se orgulhe de ser brasileiro.



Por: Jorge Pedrosa



Seja sócio da Adega

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Meu ídolo ontem, hoje e sempre

No fim do arco-íris, sempre tem um pote de ouro.


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Surfando nas ondas da internet, hoje à tarde, em minha humilde residência, ouço longe uma música com rufar de tambores, trompetes e bumbos. A música vem mansamente alegrando o ambiente, que coisa boa. É difícil alguém escutar esse tipo de som em época em que a música anda tão comercial.


Querendo me concentrar no que estava fazendo, já não conseguia mais. Aquelas músicas surgiam em meu ouvido e me causavam curiosidade. Então, procurei saber a origem e tive grande surpresa. Era do vizinho, um garoto de 12 anos. Ouvinte e executor de algumas melodias.


O fator de importância já não era mais saber quem estava por trás daquele som, mas sim saber que banda era aquela e quem fazia parte dela. Logo, o garoto me explicou que escutavao bandas marciais para aperfeiçoar suas habilidades e treinar para o desfile de Independência - já que sua escola iria se apresentar no centro da cidade.


Questionando o jovem vizinho sobre tocar em banda marcial e a apresentação do desfile, ele mostra a capa dos cd’s que estava ouvindo. Aí sim, minha surpresa! Os que aguçaram minha curiosidade eram da banda marcial da Polícia Militar. Entre eles, uma figura muito famosa. Fiquei feliz em vê-lo na capa daquele objeto.


Com uniforme azul e seu instrumento, Carlos Roberto não era mais aquele cantor que arrebatava o coração das meninas em anos distantes. Junto de seus colegas, hoje, causam admiração e respeito pelo que fazem. Afinal, shows de banda marcial não acontecem todos os finais de semana.


De volta à minha casa, resolvi pegar todos os discos do Carlos Roberto que tenho em coleção. Sou grande fã. Ah, se todos gostassem de música boa, de qualidade Era tão bom ir aos shows e ver as mirabolantes apresentações. Tempo que não volta mais...


Passando de disco em disco, deparo com seu último álbum: “O homem amarelo”. Depois de descobrir o destino do meu ídolo de adolescência, percebi como ele está infeliz na capa daquele bolachão - ­como chamávamos os discos naquela época. Terno amarelo, calça marrom e olhar melancólico. Tristeza.


Em fim de carreira, muitos artistas não sabem mais como atrair a atenção do público. Não sabem a causa das músicas não tocarem mais nas rádios, não têm explicação para a repentina decadência e solidão. Vai ver que por isso Carlos Roberto deu ao último álbum o título de “O homem amarelo”.


Talvez já não estivesse tão iluminado assim, ou o disco poderia se chamar “O homem dourado”. Amarelo seria seu sorriso em perceber que o tempo passa e nem tudo permanece. Mas só grandes artistas têm o poder de descobrir outros talentos e se reinventar.


Carlos Roberto, hoje, toca na banda marcial da Polícia Militar e - mesmo sem saber disso - despertou minha atenção em conhecer de quem era aquela música. Isso sim é um ídolo, isso sim é um homem insólito e multicolorido. Enfim, temos de dançar conforme a música.


  
Autor: Gustavo Rosa




Seja Sócio da Adega

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Século Vintedois

Ah, os livros. Grandes livros...


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Era jantar de aniversário do diretor de métrica, homem dos mais rigorosos da firma. O assunto da mesa não poderia ser outro, o escândalo da semana: as câmeras de vigilância haviam flagrado o estagiário que manejava a máquina de mixagem de versos lendo no banheiro uma espécie de ipad arcaico, feito de papel. Nele havia poemas de um tal Edgar Allan Poe, supostamente poeta independente: haveria escrito sozinho os versos!


Dada a complexidade dos poemas o chefe de repartição logo concluiu que seria impossível aquilo ser feito por apenas um homem e fora da escala industrial. Talvez houvesse sido produzido por uma empresa da pré-modernidade, já que lá pelo início do século 21 ainda adotavam esse tipo de produção. Estranho era o fato de aquilo ter sido preservado depois de tanto tempo. O jovem, gaguejando, não soube explicar-se. Começou a suar frio. Após ler algumas linhas o chefe lhe devolveu o objeto: “pode ficar com isso, meu jovem, não tem a menor qualidade”.

O estagiário respirou aliviado enquanto guardava seu arcaico ipad. Eis que deixou cair um papel bem amarelado que apresentava finas linhas azuis paralelas e simétricas. Os olhos do chefe se arregalaram, tinha certeza estar frente-a-frente com um subversivo: estava escrito, em tinta, palavras organizadas em forma poesia. Chamou imediatamente a segurança. Diante da gravidade, o caso foi levado à alta cúpula da Poems Inc. O presidente da empresa não só demitiu imediatamente o aprendiz como encaminhou o sujeito à polícia. O caso era sério, descobriu-se que apesar da inocente aparência o jovem pertencia a uma organização criminosa que produzia poemas individuais assinados com nomes falsos e os distribuía clandestinamente. O marginal está sendo mantido incomunicável e responde a processos por formação de quadrilha, exercício ilegal de profissão, concorrência desleal e falsidade ideológica.

Todos ficaram realmente chocados com o fato de que ali dentro da firma poderiam conviver com um desses terroristas literários que tanto falam a imprensa e a polícia. Ora, imaginem se todo mundo (leia-se: qualquer um!) resolve escrever poesia por sua própria conta e distribuir por aí! Obviamente, aconteceria uma banalização absurda e uma queda de qualidade dos poemas. Gente sem formação profissional nem senso de responsabilidade prestando esse serviço tão vital para o bem-estar social. Logo surgiriam hordas escritores sem técnica atentando contra os bons-costumes, rompendo métricas, quebrando rimas e repetindo essa ladainha de que poesia é arte. E como viveriam eles que estudaram com tanto afinco se as empresas de poemas começassem a falir simplesmente porque agora qualquer um poderia escrever poesia se bem entendesse?!

O diretor de rimas tentou mostrar indignação:

- Deus me livro, digo, Deus me livre...

Não conseguiu esconder o pavor por cometer tal deslize. Poderia ser acusado de subversão. Mas felizmente nenhum dos presentes sabia o que significava a palavra “livro”. A terrível falha, que quase o entregou, passou apenas como um erro gramatical. Menos mal.

O chefe do departamento de temáticas amorosas, um gordo sentado ao seu lado, cochichou em tom profético: "Já não se faz poesia como futuramente".


Autor: Vitor Taveira <www.gritoliterario.blogspot.com>



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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Alergia de Santa

Há os que nascem para certos feitos, os que nascem para outras coisas, e aquele que nascem... Bem, eles simplesmente nascem.

O que importa mesmo é o "Felizes para sempre", seja como for.

Sirvam-se.

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Não se falava em outra coisa na cidade. Qualquer roda de discussão, prosa na esquina e até bebum que falava sozinho, todos falavam no mesmo assunto: o casamento da Candinha. Era a filha mais nova do prefeito, casta, nunca tivera um namoradinho sequer. Nem um daqueles que a gente namora, mas esquece de avisar pra ele, ou ela. E todo mundo adorava a Candinha. Ela era meio filha de cada um na cidade. Quando anunciou que ia casar com o Marcondes, foi o maior alvoroço. Cada um queria contribuir de um jeito, eram as flores com um, o convite com outra, os textos com mais um, e ela chegou a receber um punhado de cartas com sugestões para os votos matrimoniais. Candinha era assim, simples e querida por todos. E o sonho dela era casar mesmo, Desde pequenina.

O Marcondes também era sujeito bem quisto nas redondezas. Não como a Candinha, mas rapaz trabalhador que sempre ajudou a família. Bem apessoado, bem humorado e bem aventurado na vida. Menino pra casar mesmo, que nem a Candinha. E também sonhava em casar. Nada podia ser mais perfeito, e nada podia dar mais certo. A aprovação do casal chegava a ser maior que a do flamengo lá em Bangu I, onde passei uma temporada agradabilíssima, aprendendo a ler e escrever. Mas eu não sou nada nessa história o que interessa é a Candinha e, um pouquinho, o Marcondes.

De casamento marcado e com tudo bem encaminhado para a festa e para a cerimônia, a noiva experimentava seu vestido pela enésima vez. E também pela enésima vez não se importava com as sardinhas vermelhas que apareciam em seu braço. “Deve porque o vestido é novo, ou então da fricção do entra-e-sai”, comentava Candinha. A maquiagem também estava ok, e a limusine com motorista que a levaria para a igreja já estava com tanque cheio desde duas semanas antes. Definitivamente, nada daria errado. Era o casamento perfeito.

Dois dias antes do casamento, a cidade já estava em festa. Em qualquer bar que se fosse, era possível encontrar pelo menos dois ou três sujeitos que comemoravam as bodas desde a semana anterior. E muitas moças não iam aos bares por já estarem maquiadas desde a semana anterior, porque só tinha um salão na cidade e a demanda estava grande. A Candinha estava acordando naquela quinta-feira, e quando foi lavar o rosto, susto: muitos pontos vermelhos tomaram conta do seu rosto e, como ela pôde constatar logo, do seu corpo.

Levaram a coitada às pressas para o médico. “Catapora, sem sombra de dúvidas”, disse o médico. O casamento teria que ser adiado em duas semanas. Quem já estava no bar permaneceu, e quem já estava maquiada, nem se mexeu. E durante a quinzena seguinte a cidade permanecia na mesma, umas arrumadas, outros comemorando e outros e outras se arrumando, nada necessariamente na mesma ordem, mas tudo ok, porque dessa vez ia. Até porque a Candinha estava tomando sete banhos de permanganato ao dia. Te esconjuro, catapora!

Passou o tempo e um dia antes da cerimônia metade da cidade já estava em frente à igreja e a outra metade no bar do Malaco, que é do lado do cemitério, que é do lado da igreja. Todo mundo na rua. “Caxumba!”, foi o que a tia do Marcondes chegou gritando no meio do povo, e mandando ninguém se mexer, que semana que vem ia ter casamento de qualquer jeito, palavras da própria Candinha, que tava de cama e, você sabe como é, não se pode brincar com Caxumba.

Mas uma semana depois, o Marcondes e a Candinha casaram. “Saravá!”, gritava o pai do Marcondes sem parar, olhando pra moça desacordada na maca. O povo, como previsto se manteve em frente à igreja e no bar do Malaco, e o casório finalmente aconteceu. Só não teve lua-de-mel ainda. Eu não consegui entrar na igreja, mas me falaram da história. A Candinha até que desmaiou na hora do sim-sim, mas deu sorte que levou o gravador com um sonoro “Sim!” gravado por ela mesma, por precaução, e ainda conseguiu apertar o play antes de desfalecer. Ela era mesmo uma menina de fibra!

Faz um mês eu tive notícias da Candinha. Desde que ela desmaiou não acordou ainda, fica lá na cama, com acompanhamento médico e tudo, e ninguém consegue diagnosticar o problema. Já foi médico até do Camboja para a cidade, e nada - e olha que esse pessoal de olho puxado é inteligente pacas! - e todos na cidade torcem pra ela melhorar, fazendo várias vigílias na casa dela. Quando eu lembro disso tudo, só consigo pensar em duas coisas: ou a Candinha nasceu pra ser santa, ou só pode ser um caso raro de alergia a casamento! Pior pro Marcondes que vive aos prantos, coitado.


Autor: Jorge Pedrosa



Seja sócio da Adega

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Selva de borboletas

Sabores de amor, com essência de paixão.

A Adega deseja belos dias!

Cordialmente,

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Eis uma das definições de um dicionário qualquer para hiato: fenda, ou seja, uma interrupção entre duas coisas, onde não acontece nada muito incrível, nada que valha a pena contar. Até a parte da “fenda”, tudo ok, mas o resto é por minha conta e antes que qualquer sujeito venha fazer oposição ao pensamento, já digo que discordo. E Discordo com “D” maiúsculo e Propriedade. Cheguei primeiro. Agora vamos ao romantismo barato que ninguém vai querer ler mesmo...
Sabe aquela vidinha sem graça, sem adrenalina, que não dá muita história pra contar, que quando você pensa nela acaba dormindo antes de chegar na metade e aí nunca entende muito bem o que aconteceu? Pois é, eu também não sei como é isso. Mas mesmo entre um mundaréu de acontecimentos, sempre tem aquele que ninguém dá nada, e que no final te faz pensar em como as coisas podem ser ainda melhores na vida. Como no caso do menino de óculos de fundo-de-garrafa que senta num canto da frente da sala de aula e que, quando ninguem mais se lembra dele,  vira o maior cientista da NASA.
Foi mais ou menos por esse hiato que começou minha historia. Não sei de qual santo veio, mas como essas crendices todas não enchem muito meus olhos, eu acho que alguém convocou uma reunião num mundo paralelo qualquer por ai, juntou todo mundo e foi criada uma conspiração. Porque só dessa forma pra se explicar uma paixão mais repentina que criança comendo areia da praia: você pode até tentar impedir, mas todo mundo sabe que é impossível.
Vou ser fidedigno aos fatos: nos conhecemos, conversamos, rimos, brincamos, nos abraçamos, andamos de mãos dadas, fomos ao cinema, saímos novamente, e saímos de novo, e de novo. Enfim, estivemos juntos em diversas ocasiões, mas como todo casal da moda que se preze e todo artista super-solicitado, estávamos “nos conhecendo”. Mas depois veio o fato: aconteceu o que acontece com todo casal que está feliz, e com todo casal que conversa e ri.
Namoramos. Exatamente isso, e veja só, que interessante... Penso que se eu estivesse lendo com outras dez pessoas ao meu lado, nem nove pessoas e meia entenderiam que justamente essa simplicidade toda é o que nos causa o fascínio, torna as coisas mais interessantes e o colorido mais colorido. Até o preto fica mais preto e o brando, mais branco.
Eu sei que é tudo uma grande besteira, que eu já perdi meu tempo escrevendo e você o seu, lendo. Mas valeu a pena, cada minuto e segundo que estivemos aqui; porque um dia, meu amigo ou minha amiga, você vai lembrar de mim e vai cantarolar os versos da canção. Tudo isso só porque vai acabar de perceber que “é impossível ser feliz sozinho”. As coisas só não acontecem para quem não sabe ver, o hiato é relativo e só existe se você criá-lo, assim como o bicho papão e o velho do saco. Borboletas são lindas só por existirem. Elas são capazes de dar beleza a um dia cinzento, ou luz na escuridão gris da tristeza. E os meus momentos, todos eles, são borboletas.
Ah, lembrei de uma coisa: hiato vem do latim, hiatus, que significa “boca aberta”. Pensando dessa forma, eu tenho ainda mais certeza sobre a escuridão das coisas que nunca pretendo entender, porque toda vez que eu olho para o lado, é esse efeito que eu sinto, o queixo cai. E isso já é mais que o bastante para tudo que eu poderia pensar em dizer. Ela, sempre ela.




Autor: Jorge Pedrosa



Seja Sócio da Adega

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mais uma Crônica

De escritor e louco, todos temos um pouco.

Diretamente da seção mais exótica da Adega...

Bom proveito!

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No consultório.

“Doutor, eu sou escritor, mas sou gente que nem qualquer advogado, médico, engenheiro, jornalista, diretor de cinema, carteiro, gigolô, etc., mas eu acho que meus problemas são maiores, não sei explicar bem. Magnitude incomensurável, pleonástica! É um turbilhão de coisas que atravessam minha mente. Problema dos outros, peculiaridade das coisas, cores, brilho, um turbilhão! Eu não sei muito bem explicar como acontece, eu penso em uma coisa e outras dez sobrepõem-se a ela, e elas se misturam, brigam, se separam e se condensam. Tudo numa dinâmica simultânea impressionante. É difícil demais para eu administrar sozinho. Já criei três amigos para me ajudar na tarefa! Se um sujeito começa a rir, eu já começo a desconfiar o porquê dele estar rindo, nem que seja só uma risadinha dessas sem graça e de canto de boca. Tem que ter um motivo! E se alguém chora, eu quase choro junto, me comovo, participo mesmo, com intensidade. Isso sem falar das coisas que às vezes se mexem, ganham vida, às vezes até falam e aí criam e possuem histórias difíceis de entender e eu preciso de muita concentração para conseguir atravessar esse caminho complexo em que elas acabam me inserindo. O tempo também não é muito meu amigo, assim como o espaço e até o próprio vento, que se soprar pro lado errado pode misturar ainda mais todas as coisas e eu fico no meio de um tornado maluco de muitas histórias que insistem em não me deixar dormir. Eu só penso em tudo, a todo o tempo. Já estou até andando com bloco de notas e caneta, pra não me perder no meio de ninguém, nem de nada. Agora tenho tudo controlado, até meu remédio, que por sinal mudou a cor da tarja. Descobri por mim mesmo que a ausência de cor me acalma mais. Não que eu seja o retrato da paciência e do controle próprio, muito pelo contrário. Se às vezes eu consigo sentar e pensar em situações com alguma conexão, devo isso àqueles designers de caixinha de remédio que inventaram a bendita tarja. Santos mestres das cores... Ah, como eu adoro as cores! Elas deixam meus monstros e os meus anjos mais coloridos, o que é bom, porque quando eles começam a guerrear muito, minha massa encefálica tem algum momento de paz: é quando todas as cores se misturam e o branco criado me faz bem de verdade. Não quero parecer um Nietzsche, ou qualquer outro maluco desses da história. Não que eles sejam malucos e não mereçam a fama toda que têm pelo que fizeram, mas eles são malucos, e eu não sou megalomaníaco ao ponto de querer alcançá-los, exceto pelos meus problemas, que são pleonásticos de tão grandes, como já bem lhe disse. Eu sei que não estou maluco, e vim aqui para me assegurar disso, se não para quê serviria uma analista, não é mesmo? Eu só quero mesmo um diagnóstico para saber o que devo escrever no próximo e-mail desesperado a ser enviado ao designer da tarja do remédio pra inventar uma cor mais forte, porque sem cor, não dá mais para ficar! Não é só isso, mas é isso, afinal”.

Analista: 

 - Mas está claro que sua doença é crônica!

Acertou na mosca. Era só mais uma crônica.


Autor: Jorge Pedrosa

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Papagueando

Mais uma que nos remete à série: "Eleições 2010".

Bom proveito!

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Estava assistindo televisão quando começou o horário eleitoral. Que saco. Em época de eleição é sempre a mesma coisa. À noite, a programação é interferida pelo horário eleitoral. No início, são destinados 30 minutos, no período da manhã e da noite, e perto das eleições, são 50 minutos de pura agonia, algazarras e rogativas, na minha humilde opinião. Todo dia aguento o horário eleitoral. E o pior não é assistir, é ter de escolher os candidatos.
São homens e mulheres ponderando, convocando e, às vezes, implorando para que eu ajude a transformar o país. Até parece... Que juntos faremos melhorias na saúde, educação, economia, e por aí vai. São tantos pedidos de gente atrapalhada que fico sem reação. Pedem meu voto e de meus familiares, piorou! Mamãe não tem idéia em quem votar e sempre fica me adulando com a mesma ladainha: “Filha, em quem nós votaremos?”. Eu sempre respondo com o mesmo discurso: “Eu, ainda não decidi. Agora, em quem você vai votar, não tenho idéia”.  
Por sua vez, o namorado de mamãe já tem tudo definido. Influente e curioso pelo mundo da política, ele vive nos criticando pela forma como tratamos o assunto. “Se vocês que julgam ser o povo não têm a preocupação de votar, por que o fazer?”. Não tiro a razão dele. Só penso que os candidatos não parecem levar a sério o assunto. Não na magnitude que se carece. E Belinha me apóia. Pelo menos repete quase tudo que falo. Belinha é um pequenino papagaio que ganhei de titia. Parecido com os que existem nos zoológicos.

Passeio
Tive de sair de casa. Fernando, o namorado de mamãe, quando dispara a falar sobre política, nem Cristo agüenta. Peguei Belinha e avisei que ia dar uma volta. Deixei mamãe sozinha para aguentar o fardo político. “Tadinha!”, matutei. Se eu permanecesse, sabia que o bate papo resultaria em discussão. Ao sair de casa, encontrei papai na rua e Fui cumprimentá-lo. Belinha não perdeu a oportunidade de se mostrar “Olá Pepê! Pepê! Pepê!”, papagueava. Esse era o apelido dele. Eu e papai começamos a rir. E papai, como de costume, fez aquele comentário “Ê mundo animal, sempre nos surpreendendo!”. Em seguida, ao começarmos uma conversa, um amigo dele chegou. Mal soltou um “Boa noite” e já desandou a falar sobre a tal política. Fiquei indignada e o ignorei. Só não percebi que, antes de ignorá-lo, eu é que fui deixada de lado. Até por papai. Fiquei revoltada, só que mantive a calma e permaneci. 
O amigo falava empolgado, discorrendo sobre as falcatruas de fulano, apoio a ciclano e beltrano, e papai assentia com a cabeça, concordando. Eu não acreditava no que estava vendo e ouvindo. Fiquei estarrecida no momento em que disseram que era melhor votar em alguém que fosse realizar alguma coisa boa. “Boa para eles”, pensei e disse. Ambos me olharam. Então, tive de falar o que pensava. “Como podem julgar que determinada pessoa fará alguma ‘coisa boa’ para vocês?”, adverti. “São tão especiais que merecem privilégios? Ou acreditam que o mundo gira em torno de vocês?”, rematei. “Tolos! Tolos! Tolos!”, tagarelava Belinha, enquanto eu sentia uma rápida sensação de rir. E eles permaneceram em silêncio, me observando.  
Na verdade me senti mal protagonizando a cena. Dei as costas e me retirei com Belinha. A caminho de casa fui refletindo sobre o acontecido. Em como ainda existem pessoas que apreciam a troca de favor, venda de voto, e votam em qualquer candidato. Lembrei que, antes de sair de casa, ao ignorar o assunto, eu era exatamente assim. 
Ao chegar em casa, notei que os ânimos estavam mais serenos. E o horário eleitoral não havia acabado. Sentei no sofá com Belinha para assistir. Dessa vez, fui avaliando as propostas dos candidatos e partidos, enquanto Belinha repetia tudo o que era falado na televisão. Ao terminar o programa, cheguei a uma conclusão. “Belinha, precisamos alertar as pessoas, entre elas, mamãe e papai, sobre o poder de decisão do voto. E, sobretudo, que existem candidatos sem saber o que fazer no governo. Acreditando que com eles, pior do que está, não fica”, desabafei. E Belinha, parecia ser a única que me compreendia. “Precisamos alertar! Alertar! Alertar!”, papagueava incontrolavelmente.


Autor: Fernanda Gomes



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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Festival de Twitteratura

Bons movimentos merecem boas referências. Um conto em 140 caracteres? Interessante... Vale a pena tentar!

Uma verdadeira fábrica de ideias.

Mais informações em www.shoppingpcosta.blogspot.com ou através do twitter @shoppingpcosta
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É isso aí Galera, está no ar o 3º Festival de Twitteratura Shopping Praia da Costa. Como a maioria já sabe, o concurso consiste na elaboração de nanocontos obedecendo as regras do microblog Twitter: as histórias deverão ter até 140 caracteres, e devem ter início meio e fim.

Nas duas primeiras edições do evento foram recebidos aproximadamente 600 nanocontos, cerca de 300 em cada uma. A expectativa é que dessa vez o número de participações chegue a 450!!

O humor é parte integrante da nova onda, pois, ainda que seja escrita uma história triste, é interessante observar o poder criativo dos participantes. A Twitteratura é divertida, exige intensidade e rapidez de raciocínio, uma vez que critérios difíceis de serem estabelecidos como coesão, coerência e enredo devem ser inseridos em um espaço reduzido. E cortar palavras não é tarefa fácil (que o digam os twitteiros menos experientes!). O resultado é sempre satisfatório e inesperado, pois pode-se medir o grau de criatividade e observar as diferentes variações sobre as percepções de cada um sobre diversos assuntos.

Para participar o internauta deve enviar seu microconto, via Twitter para a página do Shopping Praia da Costa, usando @shoppingcosta. (Regulamento disponível em:http://migre.me/1DnIX). Os 10 melhores contos serão avaliados por um corpo de jurados formado pelo Doutor em Semiótica e professor da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), Raimundo Carvalho, pelo Professor de Marketing e Novas Mídias também da UFES, Ruy Roberto Ramos e pela jornalista e mestranda em Estudos de Linguagens pelo CEFET/MG, onde desenvolve pesquisa sobre Twitter, blogueira e consultora, Roberta Camargo.

O melhor autor entre todos os microcontos levará para casa um leitor de livros digitais, com agenda e gravador de voz. Tente você mesmo, conte as palavras, aperte os espaços e ponha a cabeça para funcionar. Um conto em 140 caracteres não poder ser tão difícil...
Para se inspirar, confiram os contos vencedores do 2º Festival de Twitteratura, realizado em maio deste ano:

1º LUGAR @_ludmilla_ @shoppingpcosta Poder patriarcal, casamento precoce, violência, silêncio, desilusão, voz, divórcio. Aos 61 anos, Maria conheceu a liberdade.

2º LUGAR @steph_q @shoppingpcosta Eu pensava que o mundo lá em cima era ruim. Agora, já era né?! Já volto! Vou ali comer o pão que o diabo amassou. Resmungou.

3º LUGAR @brunobarrett @shoppingpcosta Certa manhã, voava a garça quando o menino que olhava a vidraça subitamente ficou vidrado. O feitiço nunca foi quebrado.

Cronograma 3º Festival de Twitteratura Shopping Praia da CostaLançamento: 19/10
Período para recebimento dos contos: até 03/11
Divulgação do resultado: 10/11
Os contos enviados pelos participantes deverão ter no máximo 140 caracteres, sendo que deverá constar no conto o prefixo @shoppingpcosta e serão analisados com base nos critérios de ortografia, legibilidade e concordância.

Confira o regulamento em: http://migre.me/1DnIX

sábado, 16 de outubro de 2010

Incomodador Fascínio

Adaílton: A partir de agora, futuro assassino de duas pessoas.

Eu: Sujeito que cai de paraquedas no campo minado de uma mente aleatória.

Outros: São outros, só outros. Mas eles mesmos.

Inocência: Fenômeno relativo e suscetível a fatores desconexos.


Bom proveito!

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“Não sei por que você se foi, quantas saudades eu senti, e de tristeza vou viver, e aquele adeus, não pude dar...”. Era exatamente essa a música que saía do fundo daquele copo de cerveja quente, naquela noite de verão atipicamente fria de um bar qualquer, onde gordura no copo é o menor dos males sanitários. Já tinha perdido as contas de quantos copos aquele sujeito havia bebido. Aqueles olhos de breu marejados me causavam alguma coisa que eu não sei muito bem explicar. Vou utilizar a palavra ‘incômodo’. Eu bebia vodka, mas os efeitos do meu copo cheio – não importa quantos fossem – não se comparavam nem um pouco à ação daquela simples cerveja sobre aquele moço. A cena era fascinante e incômoda – não sei por que penso tanto –, o título já me diria. Era exatamente isso. Estava imerso em torpor daquele fascínio incomodador.
            Permaneci com ele nos versos da canção durante alguns minutos, fitando a certa distância aquela cena ligeiramente inconveiente. A banda era meio desafinada, mas, para quem não estava a fim de pagar o couvert artístico, o som parecia excelente. Em certo momento ele se levantou para ir ao banheiro e passou por minha mesa e, trôpego, apoiou-se na cadeira ao meu lado, desequilibrou-se, caiu e vomitou. Perguntei se estava tudo bem. Ele vestiu um resto qualquer de dignidade perdido naquela imundície, levantou-se e continuou a saga ao sanitário. Quando o homem voltava, não me contive e perguntei se poderia fazer-lhe companhia. Ouvi um “não, obrigado” grave, saído meio baqueado, e voltei para meu lugar, esperando mais uma dose.
            Um tempo depois, chegou minha companheira Marieta – uma das mais bonitas do bairro. Eu estava apaixonado e era a primeira vez que saíamos. Ela sentou-se ao meu lado, me deu um beijo no rosto e pediu o cardápio. Depois de um minuto de silêncio à mesa, olhou em minha direção e perguntou: “Que cara é essa?”. Foi o momento em que percebi o quanto incomodado estava com a situação criada, provavelmente por mim mesmo. Já fazia uns dois meses que eu insistia em sair com a Marieta e, quando consigo, não era capaz de ceder nem metade da devida atenção ao meu objeto de desejo. Expliquei então a ela sobre o sujeito da mesa próxima e ela não deu muita bola: “Loucura da sua mente mirabolante de escritor menestrel”, respondeu irônica.
            Após meia hora de nulidade verbal, Marieta parecia impaciente e simplesmente me disse: “Quer saber de uma coisa, eu nem sei o motivo de eu ter vindo aqui aguentar mau-humor de um fodido como você. Ou você conversa direito, ou tchau!”. Só consegui abrir a boca e dizer “tchau”. Ela levantou-se e partiu. Mas eu estava incomodado e, agora, deprimido demais para falar qualquer outra coisa. Chegava mais uma cerveja na outra mesa. A banda já cantava melhor. O álcool melhora as coisas. Mais uma dose, por favor. O mundo é mais divertido quando gira.

Desabafo
            “Meu amigo, me desculpe. Mas queira você ou não, é aqui que eu vou ficar. Quem paga a conta dessa bosta hoje sou eu! Solidão sai pra lá, que aqui não é o seu lugar!”. A rima acusava meu estado ébrio, e as palavras refletiam exatamente meu espírito determinado quando sentei na cadeira de frente para aquele protótipo deplorável. Encarei-o e disse que podia tratar de falar logo o que estava acontecendo porque se não nem ele, nem eu, curtiríamos nossa bebedeira direito. Acho que fui muito rude, ou então meu novo amigo era sensível em excesso. Apoiou a cabeça na mesa, e com a boca meio de lado, meio torta, ele começou a balbuciar alguma coisa que, apesar do agitado som da banda, eu cheguei mais perto e consegui entender.
-        Eu não precisava de ninguém comigo hoje, mas obrigado por ter vindo. A ideia de morrer sozinho me apavorava. Eu não bebo, mas hoje precisava fugir de mim mesmo, pois o suicídio é coisa vergonhosa. Matei minha mulher há meia hora. Eu não sou daqui, vim apenas atrás dela depois que ela fugiu com meu melhor amigo. Não se importe comigo, porque sei para onde vou. Gente que comete pecados iguais aos meus e dela se encontra no mesmo lugar. Lá eu vou poder reencontrá-la e, quem sabe, reconquistar o amor que não cultivei muito bem na Terra. Meu hálito é ruim em virtude do veneno que tomei, de ação lenta, que é pra dar tempo de me embriagar. Afinal quando tá bêbado a gente não tem vergonha de fazer coisa feia.
            Logo, estava morto, e era Adaílton. Tinha nome, o tal homem. O garçom me contou toda a história depois. Adaílton era sujeito sozinho na vida, só tinha a esposa. O funcionário do bar soube da história através da própria defunta. Veja só que insólito: era ele, o garçom, o tal amante da mulher e melhor amigo de Adaílton. Serviu as últimas bebidas de graça atendendo à última rogatória de um desertor da vida. Ainda teve tempo de escutar a frase derradeira que veio antes do último suspiro de vida do amigo, quando correu à mesa depois de ouvir o baque da cabeça que despencou: “Você é meu amigo, e amigo a gente escolhe para amar, ainda que erremos na escolha. Eu te amo. Até breve”.
            Conheci um sujeito especial naquela noite. E hoje tenho alguma convicção de que o Adaílton conseguiu o que queria, porque sonho com ele. E ele sorri um sorriso que eu não poderia inventar: eu nunca o vi sorrindo em vida. Era sorriso mesmo, de dentes arreganhados, de dever cumprido, recheado de espírito puro e sincero. Até hoje eu volto àquele bar para ouvir aquela banda desafinada que depois fica boa e sempre me emociono quando ouço o “Não sei porque você se foi...”. A cada encontro, tudo está do mesmo jeito. Joaquim, o garçom, ainda trabalha por lá e o repertório não mudou uma palavra. 



Autor: Jorge Pedrosa



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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nossa Marcha Mocha

 Texto enviado por: Noriana Seefeld Behrend

Vale a leitura. Sabor agradável.

Saúde!

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Já reparou que nossa vida é cercada por marchas de toda sorte? Marcha nupcial, Marcha de carnaval, Marcha cívica, Marcha ré e tanas outras. Cada qual a seu tempo e hora. O raciocínio pode parecer mirabolante a primeira vista, mas serve para ilustrar o condicionamento social a que somos submetidos desde sempre e, ao que parece, para todo sempre. Até que a morte nos separe, com perdão do trocadilho.
Que dizer sobre estereótipos presentes todo tempo na mídia regendo nossas aspirações? Há quem diga que toda ação gera uma reação. Nesse caso catastrófica, apregoando conceitos inatingíveis de beleza. Temos o péssimo hábito de taxar o que é estranho de ruim, ou seja, ser diferente não parece normal, apesar de algumas peças publicitárias dizerem o contrário. Enquanto reforçarmos a intolerância e o preconceito esses cânceres sociais não serão extirpados.
Se o cara for negro, pobre e analfabeto é bandido por tabela. Dedução arbitrária calcada em pressupostos insólitos, que o diga a nação verde-amarela de Marias e Joões espalhados do Oiapoque ao Chuí.
Mesmo assim, as comemorações cívicas do sete de setembro sempre emocionam, sendo uma oportunidade única de demonstrar patriotismo e orgulho de ser brasileiros. E a oportunidade de assistir a belos desfiles em todas as capitais brasileiras.
Talvez o leitor não concorde comigo e faça conjecturas do tipo: “Orgulho de ser brasileiro eu tenho é em época de copa do mundo.” No entanto, aposto que ao puxar na memória lembrar-se-á de momento ou personagem marcante relacionado a essa data comemorativa.
Fato que aconteceu comigo há muito anos no dia sete de setembro — e que mudou minha percepção acerca dessa data para sempre — aconteceu certo dia de calor escaldante. Eu era uma doce e sonhadora menina — apenas mais patriota que as demais — a quem o pai levava pela mão, ano após ano, para assistir ao desfile da banda militar. O dia estava perfeito: céu azul, instrumentos afinados, marcha em sincronia, fardas impecáveis, símbolos nacionais, posturas respeitosas, bandeiras do Brasil, etc.
  • Relembrando
No meio da multidão — enquanto soavam os primeiros acordes do hino nacional — ao longe se via um homem de cabelo pixaim, rosto moreno, trajando paletó amarelo e camisa de casemira azul. Ele olhava entristecido para a banda que seguia pela Avenida da cidade. Assistia introspectivo à cena, emudecido diante da multidão que cantava acalorada: “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heroico brado retumbante”.
Fiquei intrigada com a atitude passiva daquele homem e perguntei ao meu pai quem ele era. Disse se tratar do ex-sargento Passarinho, regente durante muitos anos da banda militar. Que abandonara a exercício da profissão e a música por causa da bebida. Todos os anos no dia sete de setembro ele vinha ao desfile cívico, era a sua maneira de aplacar as saudades e de espantar a solidão.
Os Policiais prestariam linda homenagem naquele dia ao sargento passarinho. Executado o hino nacional bateram continência ao amigo que acompanha tudo de longe, aturdido com aquele desfecho. O atual regente também recitou um trecho do poema de Mário Quintana: “Todos esses que aí estão/ atravancando o meu caminho, / eles passarão... / eu passarinho!”.
A ideia mirabolante dos ex-colegas de farda causou frisson entre os presentes e também no homenageado. Aplausos ecoaram durante alguns instantes. Desse dia em diante entendi o real sentido do sete de setembro. Mais que data cívica aquele dia passou a representar para mim o reencontro com a essência do ser brasileiro: perseverante e talentoso por natureza, mesmo em face dos reveses da vida.